Entrevista com Gary Francione, autor do livro "Introdução aos direitos animais"

Atualmente, Gary L. Francione é Board of Governors Professor, Distinguished Professor de Direito e o Nicholas deB. Katzenbach Scholar de Direito e Filosofia na Rutgers University School of Law-Newark, Estados Unidos. O professor Francione tem lecionado o tema Direitos Animais e o Direito por mais de 20 anos, e foi o primeiro acadêmico a ensinar a teoria dos direitos animais em uma faculdade de Direito americana. Deu palestras sobre esse tópico nos Estados Unidos, Canadá e Europa, inclusive como professor convidado na Universidad Complutense de Madrid. Tem dado várias entrevistas em programas de rádio e televisão. É bem conhecido no movimento de proteção animal por suas críticas às leis do bem-estar animal e à condição dos animais não-humanos como propriedade, e por sua teoria dos direitos animais abolicionista.

É autor de vários livros e artigos sobre a teoria dos direitos animais e o tema animais e o Direito, incluindo The Animal Rights Debate: Abolition or Regulation? (2010), em coautoria com Robert Garner, Animals as Persons: Essays on the Abolition of Animal Exploitation (2008), Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog? (2000), Rain Without Thunder: The Ideology of the Animal Rights Movement (1996), Animals, Property, and the Law (1995) e Vivisection and Dissection in the Classroom: A Guide to Conscientious Objection (com Anna E. Charlton) (1992).

O professor Francione, juntamente com sua parceira e colega, a professora adjunta Anna E. Charlton, iniciaram e operaram o Rutgers Animal Rights Law Clinic/Center no período de 1990-2000, fazendo da Rutgers a primeira universidade dos Estados Unidos a ter as leis relacionadas aos direitos animais como parte do currículo acadêmico normal, e a dar crédito acadêmico aos alunos não apenas por seus trabalhos em classe como também por seu trabalho com casos reais envolvendo questões animais. Francione e Charlton representaram, de graça, defensores dos animais que agiram individualmente, grupos de base que defendiam os animais, e organizações nacionais e internacionais ligadas à causa animal. Atualmente, Francione e Charlton estão dando um curso sobre direitos humanos e direitos animais, e um seminário sobre a teoria dos direitos animais e o Direito. O professor Francione também leciona Direito Penal, Procedimento Penal, Jurisprudência e Filosofia Legal.

direitos animais
Gary Francione é autor do livro “Introdução aos direitos animais”

Você poderia falar um pouco sobre sua infância?

Gary Francione: Eu cresci numa casa onde comíamos grande quantidade de carne e peixe. Eu realmente odiava legumes quando era criança. Embora eu gostasse de animais da mesma forma que todas as crianças gostam, nunca tivemos cães ou gatos. Tive uma tartaruga e algumas cobras-de-água, mas só isso.
Se você tivesse me dito, quando eu tinha 16 anos, que um dia eu seria vegano, eu lhe perguntaria: “O que é um ‘vegano’?” E quando você respondesse, eu diria: “O quê? Você está louco! Nunca. “


Tem sido uma jornada interessante!

Como é a relação entre animais humanos e não humanos e por que isso é uma questão ética?

Gary Francione: A maioria de nós tem consciência de que é moralmente errado tratar os animais como coisas. Reconhecemos que temos a obrigação de tratá-los “humanitariamente”. Então, embora possamos discordar sobre o que constitui tratamento “humanitário”, e alguns podem, como eu, considerar qualquer uso de animais imoral, a esmagadora maioria de nós já aceita que os animais são membros da comunidade moral. Já aceitamos que o uso e o tratamento de animais levantam questões éticas.

O que é o veganismo e por que o veganismo é a base moral da abordagem abolicionista?


Gary Francione: Veganismo significa que nós não comemos, vestimos, ou consumimos produtos de origem animal. Isto é, nós não consumimos carne, peixe, ovos ou mel. Não usamos couro, lã, pele ou seda, nem produtos de higiene pessoal que contenham subprodutos animais.

Há algumas pessoas que só usam o termo “vegano” com relação à dieta. Isto é, elas consideram vegano alguém que não consome produtos animais. Eu acho que podemos dizer que alguém que tenha uma dieta baseada em vegetais tem uma dieta “vegana”, mas acho que um vegano, propriamente falando, é aquele que não consome, veste ou usa produtos animais.

Algumas pessoas querem interpretar a palavra “vegano” de outra forma e até mesmo dizer que um vegano não participa de qualquer exploração animal. O problema disso é que, no nosso mundo, é quase impossível evitar toda exploração animal. Por exemplo, os materiais de pavimentação em estradas, muitas vezes, contêm subprodutos animais. Os plásticos em nossos telefones celulares e computadores podem conter produtos animais. Isso significa que um vegano não pode ter um computador ou dirigir em estradas? Embora eu ache que o veganismo, propriamente dito, vá além apenas da comida e envolva roupas e produtos de higiene pessoal, não devemos supor que o “vegano” esteja no patamar do nosso conceito de ideal moral.

O veganismo é a base da abordagem abolicionista de direitos animais porque, se os animais importam moralmente, não podemos justificar usá-los diretamente como mercadorias. Isso significa que não podemos justificar o uso deles como alimentos, roupas, etc. Não faz sentido dizer que você é a favor de abolir todos os usos de animais se consome ou usa esse tipo de produto.


A abordagem abolicionista requer que apliquemos o princípio da abolição em nossas vidas pessoais e isso requer que sejamos veganos.

O vegetarianismo é uma porta de entrada para o veganismo?




Gary Francione: Não. Não há absolutamente nenhuma distinção coerente entre a carne e outros produtos de origem animal. Animais usados para obtenção de laticínios e ovos são tão mal tratados quanto os animais usados para o consumo de carne e todos acabam no mesmo matadouro. Não haveria indústria da vitela sem uma indústria do leite. Há tanto sofrimento e morte num copo de leite quanto há num bife.

O vegetarianismo não é uma porta de entrada para o veganismo. Da mesma forma, o fato de não comer carne de vitela não significa uma porta de entrada para o vegetarianismo. Embora haja pessoas que primeiro se tornaram vegetarianas e depois veganas, assim como existem aquelas que antes pararam de comer vitela e agora não comem mais carne, essa não é a questão. A questão é o que deveríamos defender, e eu sinto, sinceramente, que deveríamos deixar claro que o veganismo é a base moral. Nós nunca deveríamos promover a visão de que os laticínios ou ovos são moralmente “melhores” do que a carne, assim como não deveríamos promover a visão de que comer frango é moralmente “melhor” do que comer bife, ou de que comer peixe é moralmente “melhor” do que comer frango.

Se uma pessoa está interessada em ética animal, mas não está disposta a se tornar vegana, então ela deveria decidir o que quer fazer. Mas, como defensores de direitos animais, nós nunca deveríamos promover a visão de que há uma distinção entre a carne e laticínios ou ovos. Não há. Se você consome laticínios ou ovos, você ainda está participando diretamente do sofrimento, exploração e morte de animais. De fato, se, ao parar de comer carne, você aumenta o consumo de produtos lácteos e ovos, você pode, na verdade, aumentar a exploração. Por exemplo, se você substituir as calorias que obtém da carne pela mesma quantidade de calorias por meio do consumo de frango e ovos, você vai ser responsável por mais mortes.

Por que a condição de propriedade dos animais é importante na teoria abolicionista e como o status de propriedade dos animais influenciou o sistema de direito?

Gary Francione: Todas as sociedades têm um conceito de propriedade, de coisas que não têm valor, exceto o valor que os seres humanos atribuem ou concedem a elas. Propriedade é o que não tem valor intrínseco ou inerente, tem apenas o valor externo ou extrínseco. Nas sociedades que chamamos de comunistas, o Estado, como representante dos trabalhadores, é o dono da propriedade. Nas sociedades capitalistas, as pessoas (físicas e jurídicas) são os principais donos das propriedades. Pode haver muitas variações no sistema de propriedade, mas o conceito de propriedade é importante em praticamente todas as sociedades.

Os animais são propriedade; eles não são pessoas; eles são considerados como uma forma peculiar de propriedade que, por um lado, reconhecemos como tendo interesses, que não é o caso de outros bens, tais como os nossos carros ou computadores. Por outro lado, os animais têm apenas valor econômico. Custa dinheiro proteger os interesses dos animais e qualquer despesa aumenta esse custo, que é aquilo que molda as transações econômicas.

Então, na medida em que protegemos os interesses dos animais, proporcionando-lhes uma vida melhor, aumentamos o custo associado à posse daquele animal em particular. Portanto, geralmente protegemos os interesses dos animais só até o ponto em que é economicamente vantajoso fazer isso. Ou seja, nós geralmente protegemos os interesses dos animais somente quando é economicamente benéfico. Isso significa que os animais não recebem muita proteção, porque é economicamente ineficiente dar a eles mais cuidados do que é necessário para explorá-los de forma eficiente.

A maioria dos países tem leis que requerem que nós tratemos os animais “humanitariamente”. Mas, como os animais são propriedade, os sistemas jurídicos da maioria dos países vinculam o nível de tratamento necessário ao que é habitual na indústria. Esse conceito do que é ‘habitual’ está ligado à suposição de que os proprietários são racionais e não causarão lesões ou danos desnecessários aos seus animais. O nível de cuidado exigido pelas leis “humanitárias” é muito baixo, porque, na maioria das vezes, contanto que exploradores institucionais estejam compatíveis com o padrão exigido para a indústria, entende-se que eles estão causando apenas um dano “necessário”.

Muitos de nós vivemos com cães, gatos e outros não humanos que consideramos membros da família, mas esses animais são apenas propriedade do ponto de vista das leis. E como eles são propriedade, a lei nos permite valorizá-los como acharmos melhor. Assim, podemos oferecer uma vida maravilhosa aos nossos animais de companhia ou podemos proporcionar uma vida muito triste. E somos livres para matarmos os animais de companhia, se quisermos. Eles são nossa propriedade. Podemos cuidar muito bem dos nossos carros, ou podemos vendê-los para a sucata. Nós possuímos nossos carros, e nós possuímos nossos animais. A decisão é nossa.

Existem alguns defensores de animais que acham que tudo será ótimo para os animais se abolirmos o capitalismo. Eu não sou um fã do capitalismo, mas acho que isso é simplesmente errado. Não importa quem possui os animais, se é o Estado, pessoas privadas, ou um coletivo anarquista. Se os animais são propriedade em qualquer situação, seus interesses fundamentais serão, por definição, valorizados por outra pessoa– pelos seus proprietários.


O que é bem-estarismo e neo-bem-estarismo ?



Gary Francione: O bem-estarismo é a noção de que podemos usar os animais contanto que os tratemos “humanitariamente”. Isto é, o bem-estarismo não questiona, em termos gerais, o uso dos animais, foca apenas no tratamento dos animais. O bem-estarismo se concentra em questões de reforma e procura aumentar o tamanho das gaiolas, conseguir métodos de abate mais “humanitários”, etc.


O neo-bem-estarismo, termo que cunhei em 1994 ou 1995, é a visão de que deveríamos parar de usar os animais, mas a maneira de fazer isso é através do apoio ao bem-estarismo. Isto é, neo-bem-estaristas veem as reformas bem-estaristas como um meio para alcançar a abolição do uso de animais.

No meu trabalho, argumentei que, além dos problemas morais em promover um melhor tratamento, se você acha que o uso dos animais em si é inaceitável, não há absolutamente nenhuma razão para acreditar que a reforma do bem-estar leva à abolição do uso. Pelo contrário, a reforma do bem-estar, que geralmente faz muito pouco para as coisas realmente melhorarem, tende a fazer com que o público fique mais confortável em continuar a explorar os animais. Os esforços da reforma do bem-estar são geralmente não só improdutivos, eles pioram a situação, oferecendo uma vantagem que é, na melhor das hipóteses, muito pequena. Ao mesmo tempo, dizem ao público que os animais estão sendo tratados de forma mais “humanitária” e que é moralmente aceitável consumir produtos animais produzidos “humanitariamente”.

Nós temos tido campanhas de bem-estar animal e esforços para reforma por cerca de 200 anos, mas estamos explorando mais animais agora, de formas mais horríveis, do que em qualquer outro momento na história humana.

Muitas pessoas têm utilizado o termo direitos animais impropriamente e têm agido de uma forma em relação aos animais que não tem nada a ver com direitos animais, como, por exemplo, conseguir que animais sejam abatidos de forma “humanitária”. No entanto, elas dizem que seu ativismo está relacionado com direitos animais. Como direitos animais pode ser definido de modo mais apropriado e como uma ação de direitos animais pode, de fato, ser caracterizada?

Gary Francione: Sim, estou ciente de que as pessoas que querem gaiolas maiores ou abate mais “humanitário”, e que talvez nem sejam veganas, afirmam ser defensoras dos “direitos animais”.Qualquer um pode dizer qualquer coisa.


Na minha opinião, “direitos animais” significa que os animais são pessoas morais, e isto significa que temos a obrigação de não consumir, vestir, ou usá-los para qualquer finalidade. Isso significa que defendemos a abolição da exploração animal, e fazemos isso através da educação e advocacia vegana criativa e não violenta em todos os níveis da sociedade.

Também devemos notar que o movimento da exploração “feliz”, que é muito popular, cria efetivamente uma parceria entre defensores dos animais e a indústria de exploração animal que quer promover produtos de origem animal “humanitários”. Isso não tem absolutamente nada a ver com direitos animais. Isso tem a ver com a comercialização da exploração animal e faz com que o público se sinta mais confortável com a exploração.

O que são as campanhas de um só tema? Elas ajudam efetivamente os animais não humanos? 


Gary Francione: Não, não no meu ponto de vista. Existem dois tipos principais de campanhas de um só tema. O primeiro tipo é a campanha de bem-estar tradicional, como a campanha para substituir a gaiola de bateria convencional pela gaiola “enriquecida”*. (Nota da entrevistadora: *Nas gaiolas “enriquecidas”, a quantidade de galinhas é menor, e deve haver um ninho, poleiro e prancha para desgaste de unhas, além de material adequado para cama e absorção de excrementos).Oponho-me a essas campanhas pelas razões expostas acima.


O segundo tipo é a campanha que pretende abolir um tipo particular de uso de animais, tal como uma campanha contra a pele, ou uma campanha contra a carne, isto é, uma campanha para promover o vegetarianismo e não o veganismo. Essas campanhas procuram caracterizar algum tipo de uso de animais como pior do que outros. Rejeito tais campanhas porque acho que elas são desonestas e reforçam ideias especistas. Não há diferença entre a carne e os produtos lácteos, não há diferença entre a pele e o couro ou a lã ou a seda.

Eu também acho que, até que tenhamos um número maior de veganos, nada mudará. Veja a campanha antipele e as campanhas antivivisseccionistas. Essas são campanhas de um só tema que vêm sendo feitas por muitos, muitos anos. No entanto, a pele está mais popular do que nunca e mais animais estão sendo usados ​​na pesquisa do que há 30 anos. Campanhas de um só tema simplesmente não funcionam.

Tenho tido o cuidado de dizer que, se os defensores querem se envolver em campanhas de um só tema do segundo tipo, eles deveriam, se são defensores de direitos/abolição, unir explicitamente a mensagem da campanha ao veganismo. Por exemplo, um grupo de base da Espanha fez uma campanha contra as touradas, mas a campanha foi explicitamente vegana e promoveu a mensagem de que é preciso fazer com que animais não apenas fiquem fora da praça de touros, mas também fora de nossas mesas.

Mas eu acredito fortemente que devemos evitar as campanhas de um só tema e nos concentrar numa defesa vegana, criativa e não violenta.

Qual é a sua opinião sobre a tendência de alguns ativistas pensarem assim: “Esta campanha em prol dos animais tem muitas falhas, não é o que acredito ou o que eu quero para os animais, mas eu vou apoiá-la, porque vai ajudar os animais, se não muito, um pouco. “Ou um pensamento do tipo: “Não sabemos o que faz as pessoas se tornarem veganas, por isso deveríamos apoiar todos os tipos de ‘ativismo’.”

Gary Francione: Eu entendo que os defensores dos animais estão frustrados e querem ver a mudança acontecer agora. Mas a reforma do bem-estar e as campanhas de um só tema não fazem nada para mudar as coisas agora. Esses esforços apenas consolidam ainda mais a exploração animal.


Nós podemos fazer muito mais progresso se tivermos uma campanha unificada e exclusiva que promova o veganismo. Isso vai reduzir a demanda e alterar o paradigma de modo que a discussão social concentre-se no uso, e não no tratamento dos animais.

Alguns ativistas afirmam que a abordagem abolicionista não é pragmática e que se resume a uma posição de “tudo ou nada”. O que você diria em relação a isso?

Gary Francione: Eu diria que essa posição é errada. Eu não estou argumentando que espero que as coisas mudem da noite para o dia. Eu estou dizendo que as coisas nunca vão mudar enquanto a discussão social focar no tratamento e não no uso. Se colocarmos o veganismo no centro do debate, teremos uma discussão que fará diferença. Vemos isso agora: defensores de trabalho de base da posição abolicionista obtendo uma reação maravilhosa do público. Recebo correspondência de defensores de base de todos os cantos e todos eles estão tendo uma resposta incrível do público.

O que não é pragmático é, para aqueles que me criticam, acreditar que a reforma do bem-estar consumará algo além do que fazer o público se sentir bem quanto a continuar explorando os animais não humanos. Não há nenhuma evidência para apoiar essa posição; na verdade, toda a evidência mostra o contrário. A posição bem-estarista/neo-bem-estarista carece completamente de pragmatismo!

Você poderia dar alguns exemplos de educação vegana criativa e não violenta?

Gary Francione: Os esforços educacionais podem tomar inúmeras formas, como a seguir:

Apresentar a abordagem abolicionista em instituições locais de ensino, em todos os níveis (escolas de ensino fundamental e médio, faculdades e universidades) e se engajar em outras campanhas educativas;

Distribuir literatura acessível sobre veganismo e abolição;


Fornecer amostras de comida vegana em eventos da comunidade local;


Escrever editoriais e ensaios para jornais e revistas;

Fazer sites, blogs, podcasts e outras atividades on-line sobre veganismo e abolição;


Fazer oficinas para educar os defensores sobre as diferenças entre direitos/abolição e bem-estar;

Organizar boicotes legais às empresas, não porque vendem carne, leite, ou ovos produzidos de forma menos humanitária que outras empresas, mas porque vendem produtos de origem animal.

Essas atividades representam uma pequena fração do que pode ser feito. As oportunidades são limitadas apenas pela imaginação. Não é necessário ter muito dinheiro ou fazer parte de uma grande organização para ser um educador eficaz. Na verdade, o tipo de mudança social profunda que é necessária requer um movimento popular forte em que vizinhos educam vizinhos.

Por que você é contra a violência de um modo geral e dentro do movimento de direitos animais?

Gary Francione: A abordagem de direitos/abolicionista, como eu desenvolvi, rejeita a noção que a violência é uma forma adequada de efetuar a mudança incremental. Para fins informativos, abraço uma ética não violenta de um modo geral. A história da humanidade é a história da violência. Se a violência funcionasse, estaríamos vivendo felizes agora. Nós não estamos. Violência gera violência. A violência é o problema, não é parte de qualquer solução.

Contudo, existe um princípio mais restrito, e geralmente aceito, para chegarmos à conclusão de que o uso da violência não pode ser justificado. Esse princípio alternativo diz respeito à visão de que é errado usar a violência de forma arbitrária ou contra aqueles que estão tão relacionados com o alvo da injustiça quanto qualquer outro.

Aqueles que defendem a violência no contexto da exploração animal afirmam que é aceitável usar a violência contra os exploradores institucionais, tais como agricultores, peleiros, vivisseccionistas, e assim por diante. Mas esses exploradores institucionais fazem o que fazem porque nós exigimos que o façam. Se parássemos de exigir produtos de origem animal, os fabricantes desses produtos colocariam seu capital em outras atividades.

Embora o governo e a indústria ajudem, atualmente, a criar e apoiar a demanda por produtos de origem animal, podemos optar por ignorar esse incentivo, e, por uma questão política, podemos rejeitar as políticas governamentais que apoiam produtos de origem animal. Se um número suficiente de pessoas se tornasse vegana, o incentivo do governo para o uso de animais diminuiria. Assim, a responsabilidade da exploração animal é, num grau muito considerável, daqueles que exigem produtos de origem animal.

Isso inclui todos os “onívoros conscienciosos” ou defensores não veganos que consomem ovos de galinhas livres de gaiolas e carne “feliz”. Acho que é mais fácil caracterizar os fazendeiros como o “inimigo”, mas essa não é a realidade da situação.

Há um ponto em que a posição bem-estarista e a posição pró-violência são, teoricamente, semelhantes. Bem-estaristas caracterizam usuários institucionais como o principal problema e focam sua atenção em fazer com que esses usuários reformem as suas práticas. Usuários institucionais são agentes econômicos que farão o que for eficiente; farão mudanças que aumentam a eficiência da produção, e atenderão a nichos de mercado, mas não serão catalisadores de mudança institucional generalizada.

Só haverá mudanças significativas e disseminadas no tratamento animal se houver uma demanda generalizada por produtos significativamente mais elevados que visam ao bem-estar e à disposição tanto para pagar os altos custos que a mudança significativa acarretaria, como para manter produtos de bem-estar mais baixo fora do mercado.

Aqueles que apoiam a violência dentro do movimento focam, da mesma forma, no explorador institucional e deixam de reconhecer que, enquanto houver demanda geral por produtos de origem animal e não aceitação do conceito de personalidade moral dos animais não humanos, a violência contra exploradores institucionais não terá nenhum resultado prático. Se você destrói cinco matadouros, mas a demanda por carne permanece a mesma, a demanda será atendida, e novos matadouros serão construídos (ou os já existentes serão expandidos).

Se você fechar uma empresa que fornece animais usados ​​em vivissecção, mas a demanda por animais permanecer a mesma, porque o público apoia a vivissecção, alguém irá fornecer esses animais. A única maneira de parar ou reduzir o uso de animais de forma significativa é através da mudança de paradigma e da diminuição da demanda.

Quatro filósofos se tornaram populares no Brasil e hoje constituem uma referência no que diz respeito à teoria dos direitos animais: você, Tom Regan, Peter Singer e Jeremy Bentham. Como você analisa as semelhanças e as diferenças teóricas entre esses autores?

Gary Francione: Essa é uma pergunta difícil de responder de forma adequada neste contexto. Eu escrevi extensamente sobre esse assunto. Para uma discussão comparando e contrastando meu ponto de vista com o de Bentham, Singer e Regan, os defensores devem dar uma olhada em Animals as Persons: Essays on the Abolition of Animal Exploitation (Columbia University Press, 2008) or The Animal Rights Debate: Abolition or Regulation? (Columbia University Press 2010).

Uma resposta simples é que Bentham e Singer afirmam que precisamos levar a sério o sofrimento dos animais, mas que podemos continuar a usá-los para fins humanos na medida em que eles não são autoconscientes da maneira que os seres humanos o são. Se eles não são autoconscientes, então, não têm interesse em continuar a viver, e, contanto que nós forneçamos uma vida relativamente agradável e uma morte relativamente indolor, nós realmente não prejudicamos os animais.

Mas lembre-se de que Bentham e Singer são utilitaristas e devem reconhecer que pode haver momentos em que é moralmente aceitável e, de fato, para eles, moralmente obrigatório, usar os seres humanos e não humanos de maneiras que os prejudiquem.


Regan é um teórico de direitos, assim como eu, mas Regan conecta uma grande parte de sua teoria de direitos à autonomia de preferência e não à senciência simples. Isto é, se um ser não tem autonomia de preferência (sofisticação cognitiva que vai além da mera senciência), então é difícil para Regan caracterizar aquele ser como um detentor de direitos.

Considero a senciência, ou consciência subjetiva, como tudo que é necessário para que os animais tenham o direito básico de não ser tratados como recurso. Temos a obrigação moral de não usar qualquer ser senciente exclusivamente como um recurso dos humanos. Isso significa que não podemos comer, vestir ou usar qualquer ser senciente como comida, roupa, caça esportiva, entretenimento, vivissecção, etc. Ponto final.

O que é o princípio do tratamento humanitário e por que ele falhou em proteger os interesses dos animais?

O princípio do tratamento humanitário é o princípio que diz que podemos usar os animais para fins humanos, contanto que nós os tratemos “humanitariamente”. Ele não protege os interesses dos animais porque os animais são propriedade e, em geral, proíbe-se o tratamento economicamente ineficiente, isto é, aquele em que o mal feito a um animal não serve a determinado interesse econômico.

A realidade é que muitas nações têm leis que exigem o tratamento “humanitário” dos animais, mas os animais ainda são tratados, em todos esses países, de formas que constituiriam tortura se os seres humanos as sofressem.

Como os interesses dos animais não humanos são moralmente significativos e sujeitos à análise sob o princípio da igual consideração de interesses semelhantes? E qual é a importância de reconhecer o valor inerente do animal?

Gary Francione: O princípio da igual consideração diz que devemos tratar interesses semelhantes de forma semelhante. Os seres humanos têm interesse em continuar a viver e em não ter seus interesses fundamentais avaliados como nulos por alguém. Não humanos sencientes têm o mesmo interesse.

Nós protegemos o interesse humano de não ser tratado como uma coisa com um direito de não ser tratado como propriedade. Devemos fazer o mesmo quando os animais estão em causa.

Deixe-me dizer também que não há nenhuma maneira de “provar” que os interesses dos animais são moralmente significativos. A lógica e a racionalidade são cruciais para a análise moral. Mas elas não dão conta do raciocínio moral. É mais complicado do que silogismos lógicos. Raciocínio moral –sobre animais ou qualquer outra coisa– requer algo mais do que a lógica.

Colocando isso no contexto da ética animal: para aceitar um argumento que leve à conclusão de que todos os seres sencientes são membros plenos da comunidade moral e que devemos abolir, e não regulamentar, a exploração animal, você deve se importar moralmente com os animais.

Você não tem necessariamente que “gostar” ou “amar” os animais. Você não precisa ter uma casa cheia de animais resgatados, nem precisa ter resgatado um animal. Mas você tem que aceitar que, pelo menos, alguns animais são membros da comunidade moral; que eles são pessoas morais não humanas com quem temos obrigações morais diretas.

E você tem que querer agir moralmente com relação aos animais; você tem que sentir suas convicções morais no sentido de que você quer fazer a coisa certa pelos animais. Se você fizer isso, a lógica e a racionalidade, incluindo o princípio da igual consideração (tratar casos semelhantes de forma semelhante), podem ser usados para apresentar argumentos convincentes de que todos os seres sencientes têm esse status moral. Então, nenhuma exploração animal pode ser moralmente justificada, assim como a escravidão humana não pode ser justificada.

Mas se você não se importa moralmente com os animais e não quer fazer o que é certo por eles, então todos os argumentos do mundo não farão muita diferença. Se você não acha que devemos algo aos animais, não estará muito interessado em argumentos que se preocupam em definir com quais animais temos obrigações morais diretas, ou o que essas obrigações requerem que façamos.


Valor inerente não é um conceito místico, é simplesmente o reconhecimento de que os seres têm um valor além do valor instrumental ou econômico ou extrínseco. Todos os seres humanos valorizam a si mesmos, mesmo que ninguém mais os valorize. O mesmo é verdade para os não humanos.

Alguns dizem que, se concedermos valor inerente igual aos animais, vamos ameaçar o excepcionalismo humano. Qual é a sua opinião sobre isso?

Gary Francione: Eu discordo vigorosamente. Acho que valorizaríamos mais a vida humana se parássemos a violência desnecessária contra os animais. Acho que é perverso dizer que aquilo que nos define como espécie é a nossa violência e opressão para com os animais.

Se os seres humanos são apenas mais uma espécie animal, o Homo sapiens, no caso, por que nós temos que falar sobre direitos animais e não apenas direitos, já que tanto os animais humanos quanto os não humanos deveriam ter seus interesses respeitados? Esta divisão não seria especista? Em outras palavras, por que dividir ou unir o trabalho teórico e prático (ativismo) em direitos animais e direitos humanos? Você poderia apontar diferenças e semelhanças entre os movimentos de direitos animais e direitos humanos?

Gary Francione: Eu não divido. Vejo que os direitos humanos e os direitos animais estão relacionados. O especismo é errado, porque é como o racismo, o sexismo heterossexismo, etc, que também focam num critério irrelevante (raça, sexo ou orientação sexual ou o que for) para justificar a não concessão de igual consideração.


Não podemos dizer que o especismo é errado e não ter uma postura em relação a outras formas de discriminação.Claro que nos posicionamos sobre essas outras formas de discriminação. E essa posição é que toda discriminação é errada.Ponto final. Não importa se é a discriminação baseada em raça, sexo, orientação sexual, classe, idade, etc. Isso é errado.


Se você diz que o especismo é errado, mas você não tem uma posição sobre outros tipos ilícitos de discriminação, você achará, equivocadamente, que ‘defensores de animais’ não se preocupam com seres humanos.

E o movimento abolicionista não é misantrópico.

Que mensagem você gostaria de deixar para os brasileiros?

Gary Francione: Torne-se vegano, se você não é vegano. Se os animais são importantes moralmente, então não podemos comer, vestir, ou usá-los. Então, se você acha que os animais têm qualquer valor moral que seja, você precisa se tornar vegano. Se você já é vegano, então coloque seu tempo e esforço na educação e defesa vegana criativa e não violenta e não perca tempo com as reformas de bem-estar animal ou campanhas de um só tema.

Ser um educador requer que você se eduque primeiro. Isso leva tempo e esforço, mas, se você quiser fazer uma mudança, é preciso investir nesse esforço. Aprenda os argumentos a favor da abolição. Aprenda os argumentos sobre por que a reforma do bem-estar fracassa. Estude– e estude bastante– para que você possa ser um defensor eficaz. Defesa animal não é se divertir em conferências ou manifestações. É um trabalho árduo de mudança de um paradigma de opressão e especismo que está consolidado por séculos.

E, se você tiver recursos, adote e cuide de um animal sem teto.
 Por fim, deixe-me dizer que eu aplaudo o trabalho árduo que vocês e seus colegas fazem na educação de defensores brasileiros sobre a abordagem abolicionista dos direitos animais.

Entrevista: Vera R. Cristofani e Luís Martini

Tradução: Vera R. Cristofani

Revisão: Bia Petri

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *